O recente acordo de parceria comercial entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em janeiro de 2026 após mais de 25 anos de negociação, representa uma das maiores reconfigurações do comércio internacional de alimentos e bebidas dos últimos tempos. O pacto, ainda sujeito à ratificação formal por todos os parlamentos, incluindo o europeu, abre uma janela histórica de maior acesso ao mercado europeu para produtos brasileiros, criando condições únicas para expansão das exportações e integração comercial entre os dois blocos.
Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e União Europeia alcançou aproximadamente US$ 100 bilhões, segundo dados do Governo Federal, o que reforça o peso dessa relação. A União Europeia respondeu por cerca de 16% de todo o comércio exterior brasileiro e segue como um dos principais parceiros do país.
No campo agrícola, o Brasil ocupa uma posição ainda mais estratégica. Em 2024, o país foi o terceiro maior exportador agrícola do mundo, com US$ 144,8 bilhões em vendas externas, de acordo com o Ministério da Agricultura. Já em 2025, se tornou o maior fornecedor de produtos agropecuários ao mercado europeu, com exportações próximas de US$ 21,8 bilhões.
Esses números mostram que o Brasil já é relevante, mas ainda pode ganhar presença significativa nas prateleiras, cartas de bebidas, cardápios e cadeias de abastecimento europeias, consolidando sua competitividade internacional.
O que muda na prática para empresas com o acordo Mercosul–UE
Na prática, o acordo passa a influenciar diretamente a rotina de quem produz, exporta, importa ou vende alimentos e bebidas. Entre os principais impactos para as empresas, estão:
| Pontos | O que mudou |
| Tarifas | Redução ou eliminação gradual de tarifas entre Mercosul e União Europeia |
| Acesso ao mercado europeu | Entrada mais competitiva de alimentos e bebidas brasileiros |
| Perfil dos produtos | Estímulo à exportação de produtos de maior valor agregado |
| Pequenas e médias empresas | Ampliação das oportunidades de internacionalização |
| Exigências regulatórias | Permanecem, mas com maior previsibilidade e transparência |
| Fluxo comercial | Tendência de crescimento nos dois sentidos |
| Competitividade | Maior pressão por qualidade, marca e posicionamento |
Produtos que ganham com o acordo Mercosul–EU
Além das mudanças gerais listadas na tabela, alguns produtos recebem benefícios tarifários imediatos ou acesso protegido por cotas:
Agronegócio brasileiro
- Suco de laranja e frutas: tarifa zerada, consolidando a liderança brasileira no mercado mundial.
- Café solúvel: fim da tributação permite competir em igualdade com processadores europeus.
- Carnes: acesso via cotas substanciais com tarifas reduzidas ou nulas, gerando bilhões em novas receitas.
- Etanol: espaço ampliado na Europa como peça-chave na descarbonização energética.
Produtos industriais e de consumo
- Maquinário industrial: redução imediata de custos para modernização de fábricas brasileiras.
- Setor automotivo: peças e componentes com redução gradual, facilitando integração tecnológica.
- Vinhos e azeites: produtos europeus de alta qualidade terão preços reduzidos, estimulando o consumo interno.
Para dimensionar esse impacto, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) estima que as exportações de alimentos industrializados para a União Europeia podem crescer entre 1% e 2% no curto prazo, alcançando até 8% no longo prazo, gerando até R$ 3,5 bilhões em receitas adicionais e cerca de 30 mil empregos diretos e indiretos. Em 2025, o setor brasileiro de alimentos processados exportou US$ 66,8 bilhões, sendo US$ 8,7 bilhões destinados à União Europeia.
O acordo cria um ambiente mais favorável para que produtos brasileiros de maior valor agregado conquistem espaço em nichos que valorizam diversidade, origem e qualidade, enquanto mantém o Brasil atrativo para importações europeias, ampliando o fluxo comercial nos dois sentidos e conectando consumidores a novas experiências.
Desafios e cuidados para aproveitar o acordo
O entusiasmo convive com uma realidade conhecida por quem atua no comércio exterior. A redução de tarifas não elimina, por si só, a complexidade dos processos. Para importar alimentos no Brasil, continuam sendo exigidas certificações, registros e anuências de órgãos como Anvisa e Ministério da Agricultura, dependendo da natureza do produto. O mesmo acontece no caminho inverso, quando empresas brasileiras precisam atender às exigências sanitárias, técnicas e de rotulagem impostas pela União Europeia.
Segundo Mariane Ewbank, sócia-diretora da Fulstandig, freight forwarder oficial da Anuga Select Brazil, o acordo Mercosul–UE representa uma oportunidade histórica para o Brasil ampliar sua presença no mercado europeu, abrindo portas importantes para produtos brasileiros. Ela reforça que, para aproveitar plenamente esse potencial, é necessário percorrer o caminho regulatório e operacional corretamente, com certificações, anuências e adequação a padrões de qualidade e processos. “O acordo cria condições únicas para que alimentos e bebidas brasileiros ganhem espaço na Europa, mas o sucesso depende de preparo, planejamento e atenção às exigências técnicas, tanto no Brasil quanto lá fora.”
Há também um fator estrutural. O custo de produção no Brasil segue elevado em diversos segmentos. No mercado de vinhos, por exemplo, é comum encontrar vinhos importados mais baratos do que rótulos nacionais, reflexo de diferenças de carga tributária, escala e incentivos. O desafio está em tornar o produtor brasileiro mais competitivo, garantindo eficiência e qualidade.
Como o acordo impacta pequenas e médias empresas
Um dos aspectos mais relevantes do acordo é o potencial de inclusão de pequenos e médios negócios na agenda internacional. Dados do Sebrae mostram que micro e pequenas empresas representam cerca de 30% do PIB brasileiro e respondem por mais de 50% dos empregos formais. No entanto, a participação desse grupo nas exportações ainda é limitada.
O acordo Mercosul União Europeia, combinado com políticas de capacitação e programas de internacionalização, pode alterar gradualmente esse cenário. O próprio Sebrae atua com iniciativas voltadas à preparação de empresas para exportar, oferecendo treinamentos, consultorias e apoio em processos de adequação.
Na avaliação de Mariane, o desafio está menos na qualidade dos produtos e mais na forma como eles são apresentados ao mundo. “O Brasil evoluiu muito em categorias como azeites e queijos e já ganhou prêmios importantes, mas pouquíssimas pessoas sabem disso. Falta divulgação, marketing e apoio para preparar pequenos e médios produtores para o mercado internacional.”
Para esses negócios, internacionalizar passa por etapas claras, como adequar produto, atender exigências técnicas e fortalecer a marca, mas também estar presente onde as conexões acontecem e as oportunidades se transformam em negócio.
Como se conectar diretamente com o mercado europeu
Segundo Mariane, as feiras internacionais continuam sendo a forma mais direta e eficiente de aproximar produtores, fabricantes, distribuidores e compradores.
A Anuga Select Brazil ocupa um lugar estratégico nesse contexto. Por ser a primeira grande feira de alimentos do ano no Brasil, a Anuga funciona como uma porta de entrada para quem quer iniciar ou acelerar sua presença internacional. Em 2026, o evento acontece nos dias 7, 8 e 9 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
“Em uma feira como a Anuga, o expositor encontra distribuidores, conhece novas tecnologias, faz benchmarking e constrói relacionamento. É uma plataforma única para produtores e fabricantes brasileiros e internacionais, reunindo milhares de pessoas com foco em fechar negócios”, afirma Mariane.
Esse papel ganha ainda mais força em um momento de reorganização das rotas comerciais globais. Empresas brasileiras que desejam acessar o mercado europeu encontram na feira um ambiente propício para apresentar produtos, entender expectativas e iniciar conversas que podem se transformar em contratos.
Da mesma forma, marcas europeias interessadas no Brasil conseguem mapear parceiros locais, distribuidores e canais de venda. Para quem quer exportar, importar, testar produtos ou buscar parceiros, estar na Anuga deixa de ser uma opção distante e passa a ser parte da estratégia de internacionalização.
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